quinta-feira, 23 de junho de 2011

Veêmencia



Eu abro os olhos em uma cama desconhecida e por alguns instantes tenho medo de me levantar.
Levanto meu tronco com certo esforço e fico sentado sobre a cama, que está composta por mais três pessoas.
Olho para meu corpo, olho para o chão e olho para as paredes.
Tudo que está dentro desse lugar está nu.
Desde as pessoas que estavam dormindo comigo, as outras pessoas que estão deitadas no chão até os quadros magníficos de anjos e as estatuas de bronze que imitam o corpo feminino.
Minha cabeça dói.
Não podia esperar outra coisa depois de uma longa noite de excessos.
E agora estou em pé, tentando caminhar no pouco espaço do chão que não possui corpos, e sinto um vazio tão grande e tão sedutor, que se fosse possível eu me atiraria nele para viver o resto da minha eternidade.
Chego à sacada do apartamento e vejo o mar, o mirante e a estatua de cristo.
Diante de tanta paisagem eu não consigo não pensar na minha insignificante pequenez.
O sol está forte e quase cega a minha visão.
Mas a maresia me abraça de uma forma tão confortável que eu gostaria de me afundar nela para sentir o seu carinho até o momento da minha partida.
Aos poucos algumas pessoas se movimentam em sua nudez quase mórbida, e um homem de aparência de três décadas tenta caminhar e esbarra na garrafa de whisky que embeba o chão em uma cena perfeita, e nas notas enroladas que diante de tanta confusão parecem não possuir mais valor.
Essas são as minhas ilusões de felicidade que não são capazes de durar nem vinte e quatro horas.
Então vou até o banheiro espelhado e olho dentro dos meus olhos por segundos terríveis.
Ligo a hidromassagem, aguardo enquanto ela se enche de água, e depois entro solitário como se eu não fosse composto por medo.
Os espelhos aos poucos embaçam.
E a única coisa que consigo perceber é o movimento de peles de todas as cores confundindo-se com a brancura daqueles espelhos.
Fecho os olhos devagar e me afundo até não conseguir mais respirar.
Algumas vezes é preciso perder-se porque se isso não acontecer nós nunca poderemos nos encontrar de modo verdadeiro.
Aos poucos o desespero me toma e sinto outros membros.
Não estou mais só.

FOTO: FG-1
Autor; DDIArt
http://br.olhares.com/fg_1_foto2088027.html

Escassear



É fato que vamos morrer, e é fato também que vamos ter inúmeros momentos difíceis durante a nossa vida.
Claro que existirão alegrias, mas elas serão tão breves e tão sufocantes que durarão apenas até o momento de serem desprezíveis.
Um homem que despreza seus sofrimentos despreza também a essência humana que carrega dentro de si e se torna um zumbi desorientado, procurando espaços dentro do seu vazio para iludir-se e com isso carregar um mínimo resquício de alegria.
E quando a morte me acompanha, e afaga meus cabelos, eu sinto um desespero tão grande e tão excitante que o meu sexo endurece sobre a minha roupa e o medo toma conta do meu corpo me cobrindo de um exótico prazer.
Ela passa as mãos pelas minhas costas, e as desliza até o meu peito, onde desabotoa, com o maior cuidado possível, todos os botões da minha camisa.
Eu fico imóvel, acompanhando pelo espelho a beleza daquela cena perfeita, com as luzes artificiais iluminando tudo, inclusive o meu desejo.
E sinto o toque dela que vai em direção ao meu membro, enquanto eu escuto seus sussurros e gemidos tão agudos e fracos que quase me levam ao êxtase.
Eu agarro os seus cabelos, e a puxo até mim, e os problemas se dissolvem juntamente com as horas até não restar mais nada além de uma epilepsia coletiva combinada.
Ela se senta de costas no meu colo, e se encaixa em mim, profunda e violentamente, como se quisesse arrancar a minha alma, para apossar-se dela.
E os minutos passam e a minha instabilidade aumenta. Eu perco o controle sobre o meu corpo e não sei definir o que vem de mim e o que pertence a ela, pois estamos tão conectados que mesmo dotados de uma solidão absurda, nos tornamos nó.
Eu já não tenho presa, e não reclamo das suas unhas que me pressionam e me machucam, o masoquismo é o principal ingrediente de uma relação sexual, que na maioria das vezes não é mais do que um ritual prazeroso de humilhação e culpa.
Os meus olhos se fecham, e sobem.
Abro-os com desespero, pra não perder a concretização do momento mais belo e terrível da natureza, e encontro dor, descontrole e leveza, que se concretizam quando jogo meu corpo para trás e solto um grito seguido de um desejo agonizante de apertar algo para não ficar suspenso no ar com essa onda gigantesca d energia.
E nesse momento mais intimo, e avassalador, ela inclina o seu pescoço e em meio aos meus gemidos afirma:
“Você vai morrer”
E sai de cima do meu colo, saindo pela porta e desaparecendo no escuro da noite.
Deixando-me só, sem rumo e sem explicações, com apenas um ar de superioridade nos olhos e a certeza de que um dia ela retornará, estando eu esperando ou não por ela, pronto ou não para recebê-la.
E se materializará diante da minha visão me mostrando que mesmo sem eu conseguir senti-la ela sempre esteve aqui, montada nas minhas costas ou segurando nos meus braços, silenciosa como a noite e venenosa como uma cobra que se acaricia na perna da sua vítima para logo em seguida, presenteá-la com um bote mortal.

FOTO: Outono I
DDi art
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